Essa manhã eu me deparei com uma proposta muito curiosa: por meio de uma conta de uma cachorrinha, sua tutora entrou em contato sugerindo uma “parceria”. Ela queria que eu fosse fotografar o aniversário da cachorra em “troca” de recomendações e exposição.

Hoje, o mundo do Instagram está cada vez mais cheios de “parcerias”

Eu confesso que acho bem estranho o fato de pessoas já abrirem o seu Instagram pessoal (ou pet) com um propósito comercial. E aí começa a busca por parcerias, tornando o seu perfil praticamente um outdoor ambulante. Não estou dizendo que é o caso dessa pessoa em questão (se é intencional ou não), mas é o de muitas outras.

Cães devem ser cães

E é claro que essa moda de influencers chegou nos perfis de cachorros, né? E o que temos visto por aí? Cães cada vez mais humanizados, com tutores que postam e acham engraçado os seus cães destruírem a casa (e não percebem que isso pode ser uma indicação séria de problemas como ansiedade de separação ou mesmo falta de atividades), looks do dia, etc.

Que tal influenciar as outras pessoas de um jeito mais produtivo?

Alfie: um cãozinho super popular nas redes sociais, fofo e adestrado, mas que pagou como cliente

Não me levem a mal, mas eu não acredito em nada disso. “Dog influencers”, como o nome já diz, influenciam e ditam moda no comportamento das outras pessoas. Então, por que em vez de compartilhar “looks do dia”, não compartilhar um treino novo que você ensinou ao seu cão ou até mesmo um truque novo? Adestramento é uma das coisas mais fundamentais para um cão e o seu convívio em sociedade, mas quase nada se fala sobre isso nas redes sociais.

Fotografia: exploração da paixão

Foi conduzido um estudo da Duke University sobre a “exploração da paixão” em algumas profissões. Este estudo diz que quanto mais uma profissão se aproxima do amor, mais as outras pessoas acham que tudo bem você ser mal pago.

A lógica do pensamento, que na verdade é inconsciente, é de que já que você faz o que ama e se diverte, não tem nenhum pecado ganhar pouco ou até nada, afinal, você vai se divertir, né? Será mesmo?

Você paga as suas contas com exposição? Pois é, eu também não

Propor que uma pessoa trabalhe de graça para você em troca de “exposição” não é justo e é desrespeitoso com o fotógrafo (ou qualquer outro profissional, ainda que este esteja procurando fazer marketing social). Diferentemente de uma marca grande ou um comércio, os pequenos empresários ou profissionais liberais têm pouca margem para destinar a ações como estas. No caso do fotógrafo, que é o que tenho mais conhecimento, o buraco é bem mais embaixo.

Sessão de fotos feita em parceria com a Dog World, escola de agility onde eu pratico o esporte. É assim que eu acredito que os cães devem ser retratados: qualidade de vida para o cão é enriquecimento ambiental e atividade física!

Quando você propõe a um fotógrafo cobrir um evento do seu pet de graça, ele estará gastando a sua hora com você, degradando o seu equipamento, deixando de atender outros clientes (o que significa que na verdade estará perdendo dinheiro) na esperança de ter futuramente algum cliente vindo daquele evento ou que o conheceu através dele. Além disso, é desconsiderado todo o processo de edição, que no meu caso na fotografia fine art é infinitamente mais extenso do que a própria sessão de fotos.

E, pra ser sincera, não existe fotografia fine art de festa de cachorro, né nom?

Fotos de eventos estão mais ligados ao jornalismo: você tira fotos para eternizar os momentos, como faria de um celular, mas sem o status de ter um fotógrafo só para você. Não é uma fotografia super elaborada, com várias horas de edição e um olhar artístico.

Sugerir que eu cubra um evento sem receber nada em troca, além de não ser viável, chega a ser desrespeitoso e não é a minha praia. Depois de gastar muito dinheiro com equipamento, alguns cursos no exterior e diversos outros cursos online em dólar e euro, não existe parceria desse tipo que seja vantajosa para mim.

Foto que eu tirei de um cão que está para a adoção na Dog World

Eu trato parcerias da mesma forma com que trato meus trabalhos voluntários: prefiro ajudar quem realmente precisa ser ajudado ou quem o propósito de vida se encaixa com a minha visão de mundo.

Esse ano, como já havia falado, vou fazer o que realmente acredito e cobrar o valor que eu realmente mereço, mesmo que isso signifique que eu tenha que ganhar menos dinheiro. Eu continuo sendo doutora em literatura pela USP e consigo trabalhos na minha antiga profissão para pagar as minhas contas.

Não me levem a mal, mas eu também preciso ganhar dinheiro exercendo esta atividade que eu escolhi, assim como seria com qualquer outro profissional.

Cães que fotografei de graça para meu projeto de histórias, de como os cães mudam a vida das pessoas

Eu já trabalhei e continuo trabalhando muito de graça. De verdade, já passei meses e meses sem ter um dia de folga, trabalhando de graça. No entanto, chegou a hora de parar. Agora eu já estou em um momento que a minha fotografia já diz por si só e está na hora de ganhar dinheiro que, afinal, é o que todos nós queremos, né? E, se for para trabalhar de graça, que seja por uma causa que eu acredite, que realmente seja nobre.

Teve um caso bem curioso de um hotel que “baniu” influencers de se hospedarem em troca de parcerias. Se você sabe inglês, vale a pena ler esse artigo.

E que tipos de parceria que você aceita?

Primeiramente, quando eu quis fazer parceria, eu entrei em contato com a pessoa, estudei a sua empresa e mostrei a essa pessoa o porquê isso seria benéfico para os dois. Ah, e o principal, eu não mandei uma mensagem “copiar e colar” para todas as empresas que conheço: eu me dei o trabalho de procurar pelo menos o nome da pessoa.

Parceria feita com Rapha Aleixo, um adestrador super competente e com visões de mundo parecidas com as minhas

Se for para fazer um trabalho voluntário, eu farei para ONGs com cães para adoção ou então projetos em que eu acredite; que mostrem a importância dos cães, seja mudando a vida de pessoas ou dos cães de trabalho, seja de assistência a deficientes ou até mesmo adestradores (eles têm que obrigatoriamente usar o adestramento positivo). De qualquer forma, eu tenho que acreditar na pessoa que está do outro lado e admirá-la.

Cães com Instagram ou não são iguais para mim

Ou seja, se o seu cão tem ou não tem Instagram, ele será tratado de maneira igual por mim. No meu mundo, ninguém vale mais ou menos porque tem não sei quantos seguidores. Nossos cães são os melhores do mundo, independentemente de quantos seguidores eles tenham e é isso o que importa. Meu trabalho será feito com o mesmo carinho, com a mesma quantidade de horas e terá o mesmo custo para mim.

Eu também sou uma influenciadora digital

Cães sendo cães: é assim que quero retratá-los

E justamente por isso eu quero divulgar e perpetuar os cães como família, mas especialmente como seres que precisam de muito mais que roupas e comida. Eles devem e merecem ter atividades, enriquecimento ambiental e fazer algum esporte ou atividade física.

E é assim que eu quero mostrar os cães: como seres muito especiais, capazes de mudar a vida dos seus tutores, assim como o meu mudou a minha, mas de uma forma mais natural possível.

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